segunda-feira, junho 18, 2007

vidraça

oiço a chuva a bater nas janelas
que vejo cobrir o horizonte
com laivos de sequelas
que distorcem os salpicos da fonte.
sento-me para ouvir
o desenhar de formas ocasionais
que descrevem ao cair
o que interpreto como sinais.
talvez seja incerto,
talvez não tanto,
talvez tome por certo
o declamar de um canto
que a chuva deixa em aberto.
e não termino a ideia
com medo que se realize
o canto que oiço trovar
como numa ampulheta partida
que deixa escorrer por entre os dedos
o tempo que corre de saída

sexta-feira, junho 15, 2007

redemoinho

espero por um vislumbre
algo que me grave a mente,
algo que me faça esquecer
o que se encontrava anteriormente.
sendo que não sei o que escrevo
tampouco consigo saber o que digo
logo não sei se sei
o que digo e o que desdigo
estranho o que conseguimos com as palavras,
passamos de rico a mendigo
apenas numa fracção de nada.
e entre nada e coisa nenhuma,
mesmo no fim do começo,
vejo o começo do fim
e ao ver o abismo sorrio
pois não é tampouco ou assim-assim
o que fazia dum cataclismo

sorrindo num anzol

choro
pelo sabor da lágrima que cai
e que tu amavelmente apanhas
com teus dedos de fada
que se quedam a estes momentos.
penso nos porquês dos dedos gretados
serem tão dóceis, sedosos e afáveis
que as lágrimas deixam de correr
como que por encantamento.
o sorriso desperta, e solta-se
fugindo para a frente do sol
como que um peixe
não apanhado numa rede
mas apanhado num anzol

que bem se está no campo

gosto de estar por aqui,
é mais calmo.
ouve-se o cão a correr
ao invés dos motores a aquecer,
ouvem-se as cigarras cantar
ao invés das pessoas a gritar,
ouve-se o silêncio (shhh!) ...
ao invés dos carros barulhentos.
vêem-se as estrelas à noite
ao invés da publicidade,
vêem-se candeeiros fundidos...
ah, isso também acontece na cidade.
vêem-se rostos que nos cumprimentam,
ouvem-se vozes que realmente nos vêem,
sente-se a bondade no olhar das pessoas,,
passa-se a manhã na feira,
vê-se a bondade a atravessar a rua,
mesmo que fora da passadeira.
vêem-se carroças, cavalos, bois,
e a vontade de dormir mais um pouco
só para acordarmos mais uma vez
com o sol a bater na nossa janela

instantâneo

acordei.
vesti-me à pressa.
pus-me a andar,
e aqui estou eu
entre a névoa e o convento.
queria apanhar o pôr-do-sol
mas acabei de mão dada
com as gaivotas
e abraçado pela névoa.
está frio,
mas aguardo pelo crepúsculo.
ai
se desse para fotografar o silêncio!

domingo, junho 03, 2007

contenda

vejo a lua chegar
enquanto o sol desaparece
e no tempo que se perdeu
vejo a sobra que desvanece.
procuro um contorno
que indique quem és
para que no teu retorno
te reconheça, mesmo de viés.
assim continuo sentado
enquanto te chegas por trás
com um abraço apertado
que prevejo continuado.
sinto-me flutuar pelo espaço
que diminui até me acolher
e aconchegar no regaço
dos braços do teu ser

fuga

o sal sai do mar
como os sonhos da mente
e o querer acreditar
tornam o ser demente.
e assim como acredito
e faço vela ao luar
procuro um sentido
para onde vou chegar.
escalo a montanha da metáfora
pisando eufemismos agrestes
e tropeço numa anáfora
de contornos celestes
chego ao cume
e agarro-me a uma diáfora
que corta como um gume
e me impele na diáspora

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